Não é difícil ler Keila Tavares e
se identificar com seu lirismo poético. É paradoxalmente leve, feroz, radical e
simples, como tudo o que é humanamente expressado. Diz na lata a que veio sem
cerimônias. Na verdade, nenhuma poesia deveria ter tantos espinhos no caminho.
A poesia como acontecimento universal deveria ser acessível a qualquer alma
sedenta na busca por si mesmo. De modo que o “eu lírico” atuante é de uma
pureza, ingenuidade e intensidade latentes. Não tem medo de construir a rima no
verso seguinte e o faz sem receio do “estruturalismo” mordaz que, como fantasma,
passeia a assustar boas propostas; o novo.
Em “Concupiscência” a carne não teme
ser crua e nua; despe-se a Baco, deus do prazer e entorpecimento. Prossegue em “Instinto”
o mesmo mote para desatar num hedonismo frenético e sem pudor
“Como um lampejo,
Volta todo meu
desejo;
Teu nome pronuncio,
e novamente me
vicio!”
A poesia é livre e cheia de
sentimentos, como não poderia de outro modo. Seu estilo expressa todo um
cotidiano com lugares bem definidos. Está ali para denunciar as mazelas da vida;
convocar os rebeldes na luta contra as desigualdades sociais, as mulheres
contra o machismo e a misoginia; dá voz ao homem do campo na sequidão do semiárido
e repudia veementemente a violência do patriarcado contra a natureza feminina.
No poema “Divorcie-se”, não tem papas na
língua e lança a tônica feroz de seu feminismo cortante e empoderado. Jamais
curvada aos caprichos do machismo ou resiliente à sua retórica cínica, escrota
e canalha
Ou você está feliz
com a mentira em que vive?
Sem saber ao certo
se ele está com outra,
fazendo sexo com
ela e beijando a sua boca.
O que você sabe ao
certo é que a fatura do cartão estourou
e se você não usou
e nem tão pouco roupas pra ele comprou.
Por que ‘tá’ tão
alto o gasto e pra quem era esse sapato?
Divorcie-se!
É uma leitura onde se consome, às vistas, numa
poética intensa e clara - por vezes mórbida e ‘gótica’ – numa ode ‘prazerosa’ à
morte, visivelmente niilista, porém embalada no suspiro do “carpe diem” de
Horácio: ansiando pela vida, ainda que seu preço seja a morte
Meu desespero,
te quero por
inteiro
te sinto e não te
vejo,
te vejo e não te
tenho,
te tenho, mas não
sou tua
Sou tua, mas
moribunda.
Será que tenho
sorte,
será que tudo é
morte?
Será que estou
viva?
Será que há
saída?!
A proposta de Keila é um caminho a que nenhum
aprendiz deve se furtar (e todo poeta é um aprendiz!). É começar sem
pestanejar! Sem reservas no destilar das emoções. E, no caos delas, desafiar
paradigmas. Renegando os modelos e dando valor ao mais importante: à verdade
dos sentimentos. Soando de acordo com seu ritmo e percepções, e assim criando uma
maneira autêntica no fazer a arte.
***
Sem mais delongas, aprecie alguns poemas inéditos de Keila Tavares!
1.
CONCUPISCÊNCIA
Teu
corpo me causa demência,
desejo
proibido, furtivo,
deve
ser o calor dos quarenta,
a
idade da loba no eterno cio.
Teu
feromônio pelo ar é liberado,
farejo,
lambo os beiços
ao
ver teu corpo molhado.
Meu
perfume grudou no teu peito
e
nossa libido ainda repousa em nosso leito,
Tudo
está perfeito.
Minha
consciência só ressoa a nossa concupiscência
sem
medo das consequências.
2. INSTINTO
Ouço
sua voz, meu coração dispara!
Sinto
seu cheiro, minha mente para!
Em
um segundo, meu corpo fala.
Minha
boca cala
e
fico a imaginar teu jeito moleque,
que
me entorpece.
Cantando
em meu ouvido.
vem
todo matreiro, perco o sentido.
Então,
lembro do teu sorriso maroto
como um lampejo,
volta todo meu
desejo!
Teu nome pronuncio
e novamente me
vicio!
3.
SERTANEJO
Sai
debaixo de sol e debaixo de chuva, quando ela cai.
Mas
ele vai,
arregaça
as mangas e luta
todos
os dias pra comida não faltar,
pois
sertanejo é um guerreiro.
Acredita
na promessa do homem que ele vai ter água pra plantar,
se
desilude, conversa consigo mesmo e novamente sai,
no
chão duro vai roçar.
Pede
trabalho, trabalho não há.
Pede
uma benção, pede pra Deus ajudar;
Pede
chuva, só quer um pouquinho,
faz
uma prece bem baixinho,
quase
num choramingo pras crianças não acordar.
Chora
de dor na barriga e na panela não tem nada pra família alimentar.
Morre
sem nada, sem educação, só o nome sabe assinar
e
muitas vezes morre indigente,
sem
nem um buraco para descansar!
4.
DIVORCIE-SE
Se
ele te diz: te amo querida!
estou
de saída,
vou
trabalhar
e
de lá vou uns amigos encontrar,
não
sei que horas vou voltar,
não
precisa me esperar!
Divorcie-se!
Ou
você está feliz com a mentira que vive?
Sem
saber ao certo se ele está com outra,
fazendo
sexo com ela e beijando a sua boca.
O
que você sabe ao certo é que a fatura do cartão estourou
e
se você não usou e nem tão pouco roupas pra ele, comprou.
Por
que ‘tá’ tão alto o gasto e pra quem era esse sapato?
Divorcie-se!
Sei
que não é fácil, depois de anos casados,
jogar
tudo pro alto,
mas
com certeza é melhor viver sozinha
do
que viver uma vida vazia.
5.
A MORTE
Meus
sonhos noturnos são, amiúdes, como a chuva que vem e vai,
levando
o que não presta e trazendo o que me atrai.
Finalmente
o arauto da noite com sua foice declara:
_Tudo
jaz! A morte chegou!
Mas
quando ela me beijou,
senti
o orvalho roçar a minha face,
porém
consigo, ela não me levou.
Então
saí nua, no meio da rua,
noite
adentro, procurando e endeusando a lua.
Estava
enfeitiçada,
Morfeu
apareceu e me entorpeceu,
estava
quase desfalecida,
então
sua forma ele mudou, desapareceu.
Porém,
seu pregoeiro da morte disse:
_Apesar
do odor da putrefação, estes não são seus momentos derradeiros, pois você
também o enfeitiçou.
Ele
por ti se apaixonou, portanto, seu sono será breve
e
com um beijo leve, não ceifará o mel dos lábios teus,
pois
apesar de te venerar, não te levará,
contigo
ele não se deitará,
não
possuirá o teu corpo,
não
sentirá o teu doce gozo,
a sua libido.
Pois
o meu amor a ele é proibido.
o
meu sexo está vivo
e
apesar da morte toda noite vir me cortejar
e
como uma noiva querer me acalentar,
sei
que a ela, jamais vou me dar.
6.
INSÔNIA
Mórbido
é o sopro gélido da noite
que
levemente beija minha nuca, sinto do vento o açoite, perco a calma, fico louca
e
um arrepio percorre minha alma.
Vejo
meu corpo nu, me contorço,
minha alma se despede de mim mesma sem nenhum
esforço.
Então,
vejo a lua de sangue que me saúda com lágrimas,
sinto
o cheiro do teu corpo suado,
o
teu beijo molhado.
A
mesa está posta para nós, há duas taças e estamos sós em meio a tudo isto,
ópio, adrenalina, lítio
tudo
sorvo, tudo provo!
Meu
desespero, te quero por inteiro
te
sinto e não te vejo,
te
vejo e não te tenho,
te
tenho, mas não sou tua
Sou
tua, mas estou moribunda.
Será
que tenho sorte,
será
que tudo é morte?
Será
que estou viva?
Será
que há saída?!
A
noite não acaba,
o
sono não chega,
tudo
é um pesadelo,
arranco
meu cabelo,
suando
estou então,
minhas
pálpebras pesadas estão,
mas
o sono não me possuiu
Sou
um fantasma de mim mesma,
a
noite já se esvaiu
estou
com insônia,
estou
em estado de catatonia,
acabou-se
a minha alegria.
7.
MOMENTOS ETERNOS
Um
dia, dois dias, três,
nossos
momentos...
Poucos,
mas intensos,
simples,
mas marcantes.
Nas
estradas desta vida
os
caminhos são errantes.
Feito
de pequenos prazeres,
a
ciência está em torná-los eternos,
eterno
enquanto dure
para
recordá-los depois que passam.
8.
BIPOLAR
Somos
dois loucos,
insanos,
profanos
que
apesar de vivermos longe um do outro,
nos
compreendemos.
Há
coisas e gestos,
que
só os devassos
e
escravos
dos
loucos desejos pérfidos podem mensurar.
Pois
estes só habitam no corpo bipolar.


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